A IA matou o software. Ou só o jeito de cobrar? #62

Como parte do meu trabalho, toda semana eu leio muito conteúdo sobre dados, tecnologia e inteligência artificial (IA). Eu faço uma seleção e envio pra você os melhores, todo domingo. Vamos separar o joio do trigo.

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Olá amigos 👋 ,

Em fevereiro de 2026, o setor de software sofreu um impacto significativo, resultando no que Wall Street batizou de SaaSpocalypse:

  • Cerca de 300 bilhões de dólares em valor de mercado evaporaram do setor em poucos dias;

  • Atlassian despencou 35% em uma semana;

  • Intuit perdeu 34% no trimestre;

  • A Salesforce viu investidores começarem a questionar o modelo de cobrança por cadeira (licença por usuário).

A tese é sedutora na sua simplicidade: se um agente de IA faz o trabalho de dez pessoas, por que pagar dez licenças? E se criar software ficou muito mais fácil, por que pagar caro para quem só empacota código? Mas convém desconfiar de teses sedutoras. Especialmente quando elas chegam embaladas em pânico. Vamos separar o Joio do Trigo?

O chique é ser simples

Um dos principais executivos de uma grande empresa de ERP brasileira está há décadas no mercado de software. Quando a companhia migrou para SaaS, também teve gente decretando o fim do mundo. A leitura interna era simples: a mudança era estrutural, e abandonar a convicção no meio do caminho custaria mais caro do que atravessar a transição.

O tempo passou. A empresa sobreviveu, cresceu, e o SaaS virou parte central do negócio.

Agora, diante do SaaSpocalypse, a mensagem voltou em outra forma: a liderança não está recuando. Ao contrário. A companhia anunciou um programa robusto de recompra de ações e dobrou a aposta de que o mercado está confundindo mudança de modelo com destruição de valor. Não é só discurso. É o bolso sustentando a convicção.

Outro executivo da mesma companhia foi direto: achar que IA mata software parte de uma visão rasa de que software é só código. Como se o negócio de carros fosse o aço. A analogia funciona. E o ponto é melhor do que parece.

Código é insumo. Sempre que ficou mais barato e mais fácil de produzir, quem mais se beneficiou não foram os aventureiros com ferramentas novas na mão. Foram as empresas que já tinham clientes, distribuição, processo e relacionamento. Esse é o ponto que o mercado parece ignorar na pressa de precificar o apocalipse.

Um ERP não é algo que alguém monta num fim de semana com meia dúzia de prompts. Uma grande empresa desse setor carrega décadas de dados, regras fiscais, integrações, dependências operacionais e processos críticos. Quando um ERP erra, o cliente não perde a paciência. Perde dinheiro.

Como alguém reconstrói isso na base do improviso?

A resposta honesta é: não reconstrói. Pelo menos não agora. E talvez nem do jeito que o mercado está imaginando. Mas a convicção dos incumbentes também tem ponto cego. Empresa que sobreviveu a muitas ondas tecnológicas costuma achar que vai sobreviver à próxima. Às vezes vai. Às vezes a próxima era diferente por dentro. É por isso que a tese do SaaSpocalypse é mais interessante do que parece.

Não é o software que está morrendo. É um modelo de negócio.

Jensen Huang resumiu isso de um jeito provocador: a IA vai comer o software. Talvez. Mas comer o quê? Não o processo. Não a lógica de negócio. Não o conhecimento acumulado sobre como uma empresa opera. O que ela ameaça primeiro é o modelo de cobrar por usuário, por licença, por acesso.

A chegada de um agente de IA capaz de executar a tarefa que antes exigia dez operadores humanos torna o modelo de cobrança por dez licenças ("por cadeira") um verdadeiro delírio contábil. Contudo, o valor da tarefa e do processo de negócio não apenas persiste, mas pode se tornar ainda maior. Essa percepção levou uma grande empresa de ERP a adotar uma resposta ofensiva, em vez de defensiva: a companhia lançou uma plataforma de IA corporativa para implementar uma lógica nova, focando em vender a tarefa executada e não mais apenas o acesso ao software.

Novo conceito: modelo por tarefa é quando a empresa deixa de cobrar apenas pelo uso da ferramenta e passa a capturar valor pela execução do trabalho. Na prática, ela tenta monetizar o resultado, não só o acesso. A conta é "simples”: uma empresa que fatura R$ 1 bilhão talvez gaste R$ 2 milhões por ano no ERP. Mas gasta 15 a 20 vezes mais com as pessoas que operam esse ERP.

Se essa companhia conseguir substituir parte dessas operações por agentes especializados, ela deixa de disputar só o orçamento de software. Passa a disputar o orçamento do trabalho. Isso muda o tamanho do mercado.

Trezentos bilhões evaporaram do setor porque o mercado olhou para a IA e enxergou destruição. Essa empresa olhou para a mesma tecnologia e enxergou um mercado endereçável muito maior.

Alguém está errado. Pode ser o mercado, que adora levar narrativas simples longe demais. Pode ser a empresa, com a confiança natural de quem já atravessou muita onda e começa a achar que atravessa qualquer uma. O mais provável é que os dois estejam meio certos.

O software não morre.

Mas quem insistir em cobrar por cadeira num mundo que começa a pagar por resultado pode descobrir que o problema nunca foi o produto. Era o modelo. A pergunta que importa não é se o software vai morrer. É se quem vende acesso vai conseguir virar quem entrega resultado antes que alguém mais rápido faça isso.

A era da IA está apenas começando!

Abs, Jhon

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